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Foto surrupiada do blog..


Só agora conheci o blog da
Verinha. Sou fã dela, do que escreve e a maneira que o faz, desde que a conheci, quando ela ainda morava em Santa Maria. Vale a pena ir lá.
Oportunamente vou voltar com mais crônicas da Verinha.
Sempre pensei que a “meia-idade” fosse a divisão matemática feita dentro de uma previsibilidade possível de duração da vida. Ao meio, metade, 50 por cento pra cá, o restante pra lá. O que já foi vivido não tem retorno, reparo, nem permite saudade. Passou. Há que se conformar com isso, não tem outro jeito. No mais, meras expectativas e desejos, esperando ter tempo e fôlego para alcançá-los.
Meia-idade, pensava, seria aquela fase em que a gente coleciona saudade do que viveu e repensa o que poderia ter sido. A fase das lembranças, doces e amargas, e da certeza de que não dá para recuperar as perdas, nem o passado. Mas, enfim, ainda restaria algum tempo - a outra metade - para compensar o atraso ou o que foi perdido e não-vivido.
Quando atingisse a meia-idade, já teria filhos criados, eles mais altos, maiores e melhores do que eu. Eu os fiz nascer, por meu gozo e gosto, e os criei. Logo, aperfeiçoados pelo melhor que eu sou. E me sentindo dispensável, sem deixar de ser importante para eles.
Leria tudo a respeito do que significa esse momento da vida. Rugas, menopausa, crises existenciais, angústias. Conversaria com minhas iguais, partilhando experiências sobre isso tudo. E me questionaria constantemente se seria capaz de encarar com dignidade o rosto no espelho e o corpo na cama, sem temor, vergonha ou insegurança.
Quem sabe, viveria esta metade e o resto dos meus dias ao lado do homem escolhido, e ainda amado, calçando chinelinhos de lã ou crochê, apreciando a chuva da varanda. Fará sol amanhã? Tudo é “talvez”, porque o tempo escapa.
Poderia estar rumando à aposentadoria, carreira feita, estabilidade garantida. A época dos esforços, afinal, já teria passado. O plantio feito em meia vida asseguraria a colheita farta de frutos maduros e saborosos. Nem me importaria de separar as sementes. Com elas contaria todos os anos que vivi, um a um.
Meia-idade.
Seria sempre tratada como “senhora” ao roçar meu umbigo em qualquer balcão e teria lugar preferencial em lojas, bancos e elevadores. Primeiro as senhoras.
Recusaria convites para noites prolongadas, me recolheria cedo, não antes de ler um trecho de bom livro, de autor recomendável. E dormiria só depois de orar um terço de ponta a ponta, pelos pecados que ousei cometer.
Não afundaria os decotes, dispensaria saias de fendas sensuais e saltos altos que alongam a silhueta e deixam a figura esguia. Justo, só o comportamento. Política, ética, ecológica e socialmente correta.
Pensava: regularia meus desejos de acordo com o companheiro desta metade da vida, cumprindo todos os deveres conjugais que jurei atender. Da fidelidade prometida ao compromisso de fazer o outro feliz, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...
Meia-idade.
Algo tão distante que, parece, nunca vamos topar com ela. Tanto medo que desviamos o pensamento dela. Quando chega a hora, vê-se o que fazer. Pressentindo-a, foge-se dela. Disfarça-se. Porque a meia-idade é a fase de medir o que deu certo e o que ainda pode dar. Avalia-se que chances que ainda se tem.
Meia-idade.
Não era nada daquilo que eu pensava.
As lembranças podem-se acomodar no compartimento das experiências vividas, sem sofrer com elas. Filhos, quando crescem, podem ser parceiros, aliados, cúmplices. Nós deles e eles nossos.
A alma, às vezes serena e quase sempre inquieta, assume novas nuances, antes desconhecidas. Quanto à beleza, o amadurecimento confere um novo padrão, que as muito jovens ainda vão demorar a encontrar.
Hábitos, costumes, manias são substituídos, uns; recolhidos, outros, e a maioria, renovada. Mudando o jeito de ser, aperfeiçoa-se o modo de viver, vai-se tornando mais seletiva e qualificada, tentando ser uma pessoa melhor. Já se sabe o que se quer, e, principalmente, o que não se quer. E isso realmente é muito bom.
Acumulam-se bens pela vida e se os percebe exatamente quando não se pensa mais em guardar, mas em partilhar. Os materiais aproveitam-se pela alegria de tê-los alcançado. Os espirituais dividem-se pela grandeza de não os reter apenas para si mesma.
Na meia-idade só se aposenta o que complica a vida, atrapalha a convivência e espanta a alegria. O resto é vida e emoção para ser vivida por inteiro, com destino à felicidade.
O amado queremos que esteja ao lado para perceber toda a nossa evolução humana e para emocionar-se com a conquista do nosso equilíbrio. Que continue ardente como sempre, mantendo o cotidiano da paixão que tanto nos estimula.
Dentro da gente, o desejo e a possibilidade de amar e ser amada com intensidade, corpo e alma, do jeito que se é. Sem tentar modificar o outro, sem ajustar-se aos seus apelos. Deixando-se invadir ainda e sempre pela ansiedade do prazer, amplamente descoberto e plenamente vivenciado.
Descobre-se a graça de encontrar novos ângulos da gente que estavam escondidos e deixa-se transparecer toda a sensualidade que, por covardia ou omissão, fazíamos questão de abafar.
Aquela gostosa vontade de viver ainda nos faz atravessar noites insones, movidas pela emoção de momentos tão intensos que se tornam inesquecíveis. A tal ponto de não nos deixar dormir, misto de desassossego e querer.
Ansiedades e desejos, sonhos e ideais não morrem com o passar do tempo. A menos que desistamos de viver a outra metade da vida. Porque há tempo de sobra para recomeçar, se preciso.
Orgulhosa, a gente pode admirar-se diante da vitrina ou do espelho: inteira, plena e absoluta. Sempre audaciosa.
Bela senhora! Ou, mais que isso, sempre uma maravilhosa mulher.
De meia-idade, sim. E daí?.
| Publicado no livro “Santa Maria em letras” Associação Santa-Mariense de Letras Santa Maria - RS - 1995 |
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