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sexta-feira, junho 03, 2011

A preguiça

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ESCREVER É O MEU jeito de brincar. Palavras são meus brinquedos. Brinco com as palavras para ter alegria, essa coisa rara que, segundo Guimarães Rosa, só acontece em raros momentos de distração. Como quando estou escrevendo fico distraído de tudo, fica mais fácil para a alegria aparecer com mais freqüência...

Estou escrevendo um livrinho sobre demônios e pecados mortais, o que me faz rir muito. E acho que também os deuses riem.

Não tive dificuldades para escrever sobre possessões demoníacas. Mais fácil ainda foi escrever sobre os pecados que antigamente lançavam homens e mulheres no inferno, a ira, a inveja, a gula, a arrogância, a luxúria, a avareza.

Mas estou tendo dificuldades com a preguiça. Porque não estou tão certo assim de que a preguiça seja um pecado. Acho que até pode ser uma virtude. Gostaria de ser possuído por ela de vez em quando.

Preguiça é fazer vagarosamente -ou simplesmente não fazer- o que deveria ser feito rapidamente.

Mas por que isso acontece? É a perspicácia psicanalítica prematura de Álvaro de Campos que nos explica, num único verso: "Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim..." Na preguiça, o preguiçoso está dizendo: "Não farei aquilo que um "outro" me ordena fazer...".

Há, na preguiça, um germe de rebelião. Ela é uma revolta contra uma autoridade que deseja apossar-se do seu corpo e obrigá-lo a fazer o que ele não deseja. O "outro", mestre, ordena que aquele a quem ele se dirige faça o seu desejo. Mas o ouvinte, que deveria obedecer, recusa-se.

Roland Barthes escreveu um delicioso ensaio sobre a preguiça. Se a minha memória é obediente e ainda não se entregou à preguiça, é isso que ela me traz.

Há dois tipos de preguiça. A primeira é a preguiça feliz, desejada e permitida, aquela preguiça que se tem depois de caipirinhas e feijoada. Satisfeito, sem nenhum desejo a ser realizado, o corpo se entrega: deita-se na rede sem sentimentos de culpa, abandona-se ao sono e dorme. Nessa preguiça, o preguiçoso atinge a bem-aventurança de estar reconciliado com o mundo. Não lhe passam pela cabeça ações revolucionárias que visam a sua transformação.

Outra é a preguiça infeliz que floresce nas escolas.O professor, o "outro", apresenta ao alunos um livro de 235 páginas que deverá ser lido. Além de ser lido os alunos deverão apresentar, como prova de o haverem lido, um "fichamento" do mesmo, fichamento que o professor, também por preguiça, não irá ler. Ele não é tolo.

O aluno está diante do livro fechado. "Leia-me ou te devoro", o livro lhe diz. Ele não tem alternativas. Terá de fazer o fichamento inútil. Examina o livro e dá uma olhada no conteúdo. Decididamente o conteúdo não desperta o seu apetite. Mas ele tem de obedecer contra a vontade.

Por isso o seu corpo, como resistência à ordem do "outro", começa a se arrastar, debruça-se sobre a mesa, achata-se no chão como se fosse uma panqueca.

Assim, temos duas preguiças: a preguiça que nasce da felicidade e a preguiça que nasce da revolta. As duas estão mais para virtude do que para pecado.

Eu bem que gostaria de me entregar às delícias das preguiças felizes e rebeldes. Mas não posso. O "outro" não me deixa. E não posso me revoltar contra ele, porque ele, o "outro", sou eu...


Rubem Alves, na Folha de S.Paulo.





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quarta-feira, agosto 25, 2010

Os ipês-amarelos

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Muitas pessoas levam seus cães para passear; eu levo meus olhos para passear, eles se encantam com tudo



Uma professora me contou esta coisa deliciosa. 


Um inspetor visitava uma escola. Numa sala ele viu, colados nas paredes, trabalhos dos alunos acerca de alguns dos meus livros infantis. Como que num desafio, ele perguntou à criançada: "E quem é Rubem Alves?". Um menininho respondeu: "O Rubem Alves é um homem que gosta de ipês-amarelos...". A resposta do menininho me deu grande felicidade. Ele sabia das coisas. As pessoas são aquilo que elas amam.


Mas o menininho não sabia que sou um homem de muitos amores... Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso. Gosto também de banho de cachoeira (no verão...), da sensação do vento na cara, do barulho das folhas dos eucaliptos, do cheiro das magnólias, de música clássica, de canto gregoriano, do som metálico da viola, de poesia, de olhar as estrelas, de cachorro, das pinturas de Vermeer (o pintor do filme "Moça com Brinco de Pérola"), de Monet, de Dali, de Carl Larsson, do repicar de sinos, das catedrais góticas, de jardins, da comida mineira, de conversar à volta da lareira.


Diz Alberto Caeiro que o mundo é para ser visto, e não para pensarmos nele. Nos poemas bíblicos da criação está relatado que Deus, ao fim de cada dia de trabalho, sorria ao contemplar o mundo que estava criando: tudo era muito bonito. Os olhos são a porta pela qual a beleza entra na alma. Meus olhos se espantam com tudo que veem.

Sou místico. Ao contrário dos místicos religiosos que fecham os olhos para verem Deus, a Virgem e os anjos, eu abro bem os meus olhos para ver as frutas e legumes nas bancas das feiras. Cada fruta é um assombro, um milagre. Uma cebola é um milagre. Tanto assim que Neruda escreveu uma ode em seu louvor: "Rosa de água com escamas de cristal...".

Vejo e quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo. Faço fotografias com palavras. Diferentes dos filmes, que exigem tempo para serem vistos, as fotografias são instantâneas. Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver.

Uma das minhas alegrias são os e-mails que recebo de pessoas que me confessam haver aprendido o gozo da leitura lendo os textos que escrevo. Os adolescentes que parariam desanimados diante de um livro de 200 páginas sentem-se atraídos por um texto pequeno de apenas três páginas. O que escrevo são como aperitivos. Na literatura, frequentemente, o curto é muito maior que o comprido. Há poemas que contêm todo um universo.

Mas escrevo também com uma intenção gastronômica. Quero que meus textos sejam comidos pelos leitores. Mais do que isso: quero que eles sejam comidos de forma prazerosa. Um texto que dá prazer é degustado vagarosamente. São esses os textos que se transformam em carne e sangue, como acontece na eucaristia.

Sei que não me resta muito tempo. Já é crepúsculo. Não tenho medo da morte. O que sinto, na verdade, é tristeza. O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui... Escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês-amarelos...


RUBEM ALVES 


Folha de São Paulo - 24/08/2010

Recebi  por e-mail, do Raimundo, do Pato Velho.




terça-feira, março 03, 2009

"Um Deus que sorri"- Rubem Alves

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Eu acredito em Deus!

Mas não sei se o Deus em que eu acredito, é o mesmo Deus em que acredita o balconista, a professora, o porteiro, o bispo ou pastor...

O Deus em que acredito não foi globalizado.
O Deus com quem converso não é uma pessoa, não é pai de ninguém.

É uma idéia, uma energia, uma eminência.

Não tem rosto, portanto não tem barba.
Não caminha, portanto não carrega um cajado.
Não está cansado, portanto não tem trono.
O Deus que me acompanha não é bíblico.
Jamais se deixaria resumir por dez mandamentos, algumas parábolas e um pensamento que não se renova.

O meu Deus é tão superior quanto o Deus dos outros, mas sua superioridade está na compreensão das diferenças,

na aceitação das fraquezas e no estímulo à felicidade.

O Deus em que acredito me ensina a guerrear conforme as armas que tenho e detecta em mim a honestidade dos atos.

Não distribui culpas a granel: as minhas são umas, as do vizinho são outras. Nossa penitência é a reflexão.

- Ave Maria, Pai Nosso: isso qualquer um decora sem saber o que está dizendo.

Para o Deus em que acredito só vale o que se está sentindo.

O Deus em que acredito não condena o prazer.

Se ele não tem controle sobre enchentes, guerrilhas e violência, se não tem controle sobre traficantes, corruptos e vigaristas,

se não tem controle sobre a miséria, o câncer e as mágoas, então que Deus seria ele se ainda por cima condenasse o que nos resta:

o lúdico, o sensorial, a libido que nasce com toda criança e se desenvolve livre, se assim o permitirem?

O Deus em que acredito não me abandona, mas me exige mais do que uma flexão de joelhos e uma doação aos pobres:

cobra caro pelos meus erros e não aceita promessas performáticas, como carregar uma cruz gigante nos ombros.

A cruz pesa onde tem que pesar: dentro.

É onde tudo acontece e Este é o Deus que me acompanha.

Um Deus simples.

Deus que é Deus não precisa ser difícil e distante, sabe tudo e vê tudo.

Meu Deus é discreto e otimista.

Não se esconde, ao contrário, aparece principalmente nas horas boas para incentivar,

para me fazer sentir o quanto vale um pequeno momento grandioso: de um abraço numa amizade, uma música na hora certa, um silêncio.

O Deus que eu acredito também não inventou o pecado, ou a segregação de credo.

E como ele me deu o Livre-Arbítrio, sou eu apenas que respondo e responderei pelos meus atos.

( Rubem Alves)


Este texto trouxe lá do Reclinada, o blog da Vitoria e eu estou rezando para este Deus, que também é o meu, iluminar os juíses que darão o veredito do caso da Flavia hoje.


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