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Estou escrevendo um livrinho sobre demônios e pecados mortais, o que me faz rir muito. E acho que também os deuses riem.
Não tive dificuldades para escrever sobre possessões demoníacas. Mais fácil ainda foi escrever sobre os pecados que antigamente lançavam homens e mulheres no inferno, a ira, a inveja, a gula, a arrogância, a luxúria, a avareza.
Mas estou tendo dificuldades com a preguiça. Porque não estou tão certo assim de que a preguiça seja um pecado. Acho que até pode ser uma virtude. Gostaria de ser possuído por ela de vez em quando.
Preguiça é fazer vagarosamente -ou simplesmente não fazer- o que deveria ser feito rapidamente.
Mas por que isso acontece? É a perspicácia psicanalítica prematura de Álvaro de Campos que nos explica, num único verso: "Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim..." Na preguiça, o preguiçoso está dizendo: "Não farei aquilo que um "outro" me ordena fazer...".
Há, na preguiça, um germe de rebelião. Ela é uma revolta contra uma autoridade que deseja apossar-se do seu corpo e obrigá-lo a fazer o que ele não deseja. O "outro", mestre, ordena que aquele a quem ele se dirige faça o seu desejo. Mas o ouvinte, que deveria obedecer, recusa-se.
Roland Barthes escreveu um delicioso ensaio sobre a preguiça. Se a minha memória é obediente e ainda não se entregou à preguiça, é isso que ela me traz.
Há dois tipos de preguiça. A primeira é a preguiça feliz, desejada e permitida, aquela preguiça que se tem depois de caipirinhas e feijoada. Satisfeito, sem nenhum desejo a ser realizado, o corpo se entrega: deita-se na rede sem sentimentos de culpa, abandona-se ao sono e dorme. Nessa preguiça, o preguiçoso atinge a bem-aventurança de estar reconciliado com o mundo. Não lhe passam pela cabeça ações revolucionárias que visam a sua transformação.
Outra é a preguiça infeliz que floresce nas escolas.O professor, o "outro", apresenta ao alunos um livro de 235 páginas que deverá ser lido. Além de ser lido os alunos deverão apresentar, como prova de o haverem lido, um "fichamento" do mesmo, fichamento que o professor, também por preguiça, não irá ler. Ele não é tolo.
O aluno está diante do livro fechado. "Leia-me ou te devoro", o livro lhe diz. Ele não tem alternativas. Terá de fazer o fichamento inútil. Examina o livro e dá uma olhada no conteúdo. Decididamente o conteúdo não desperta o seu apetite. Mas ele tem de obedecer contra a vontade.
Por isso o seu corpo, como resistência à ordem do "outro", começa a se arrastar, debruça-se sobre a mesa, achata-se no chão como se fosse uma panqueca.
Assim, temos duas preguiças: a preguiça que nasce da felicidade e a preguiça que nasce da revolta. As duas estão mais para virtude do que para pecado.
Eu bem que gostaria de me entregar às delícias das preguiças felizes e rebeldes. Mas não posso. O "outro" não me deixa. E não posso me revoltar contra ele, porque ele, o "outro", sou eu...
Rubem Alves, na Folha de S.Paulo.
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