quinta-feira, julho 09, 2009

O Airbus nosso de cada dia

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08 de Junho de 2009

A queda do avião da AirFrance mobilizou até o Papa, que fez orações pelos passageiros e tripulantes e mandou mensagens de conforto para a França. O Presidente Sarkozy e Carla Bruni demonstraram a dor do governo da França, país sede da empresa estatal proprietária do avião e sede do consórcio construtor do Airbus. O Presidente Lula igualmente se manifestou, rezou-se uma missa na Candelária; na capital, houve homenagens a um dos passageiros ilustres, o maestro Sílvio Barbatto, que fora regente da Sinfônica do Teatro Nacional. O tamanho da tragédia – 228 pessoas estavam a bordo – emocionou o mundo e provocou dor em 32 países, origem de passageiros e tripulantes. E nada mais justo, antes do 4 a 0, que as seleções do Uruguai e do Brasil fizessem 1 minuto de silêncio no Estádio Centenário.

Deveríamos fazer 1 minuto de silêncio a cada partida de futebol disputada no Brasil, para lembrar os mortos do dia. A cada dia, no nosso país que chamávamos de pacífico, são mortos em assassinatos e no trânsito, bem mais que os 228 que viajavam no vôo 447. Se são 50 mil homicídios por ano, a média diária de assassinatos é de 137. Se são 80 mil mortos por ano no trânsito – aí adicionadas às estatísticas oficiais as estradas municipais, vicinais e as cidades do interior, mais os mortos até 90 dias após o acidente – então são 219 mortos ao dia. Somados, são 356 mortos por dia, a cada dia do ano. É mais que um airbus 330 caindo por dia.

Por que isso não nos escandaliza? Não nos mobiliza? Não provoca reação do Papa, de Lula, da seleção brasileira, da Câmara e do Senado, dos governadores e prefeitos, de todos nós? Que diferença existe entre as vítimas que estão acima das nuvens e as que estão sobre a terra? São mais de 300 brasileiros mortos todos os dias, sem estarem indo para Paris. São mais de 300 famílias atingidas a cada dia por uma tragédia. São mais de 300 causas de violência a respeito das quais não mergulhamos em busca das caixas pretas que revelem motivos.

Depois de recolherem os cadáveres do vôo 447, as buscas vão procurar as caixas pretas, para investigar as causas do acidente e estabelecer mudanças para que as causas não se repitam. Entre os brasileiros que não estavam indo para Paris e encontram a morte a cada dia, depois de chorados e enterrados os corpos, abandonamos as buscas das causas de tanta violência nas ruas brasileiras. Não procuramos saber o que motivou as mãos que mataram, quer segurando uma arma ou um volante. Corremos o sério risco de banalizarmos essa matança diária; de ela se tornar natural. É por isso que um acidente aéreo mexe tanto com os meios de informação, as autoridades, as pessoas: porque não são rotina, não foram banalizados. Se permitirmos a banalização das nossas quotidianas mortes violentas por nossa falta de reação, acabaremos todos condicionados a aceitar nossa tragédia diária, a queda do nosso airbus de cada dia.

Alexandre Garcia é jornalista em Brasília e escreve semanalmente em Só Notícias

7 comentários:

Luci Lacey disse...

Rosa

Anda muita gente com medo de voar, inclusive eu.

E a banalizacao da vida, a ganancia deles e insana.

Beijinhos

Ângela Coelho disse...

Se fossem fazer 1 minuto de silêncio nos jogos de futebol por mortes ocorridas no Brasil, creio que não teríamos mais jogos pois não haveriam minutos suficientes. Enquanto isto o Governo diz que a educação, saúde e segurança estão ótimas. E o Presidente Marolinha continua viajando.
Beijos no teu coração.

Conceição Duarte disse...

Pois é, a todo dia, muita gente morre e ninguém faz nada, hoje mesmo no meu post mais maluco, eu disse sobre a morte do empresário do Murumbi. Uma loucura. Temos os meninos motoboys que morrem dois por dia, e ninguém faz nada, parece que vem uma lei aí, mas vamos ver se pega, quem fiscaliza, etc.
E assim, vamos nós sem freio, sem governo, sem ninguém para olhar por nós!
E assim, é a vida...
Um beijo, CON

tita coelho disse...

Rosinha menina...Eu tenho medode voar atualmente! É muito avião caindo!
Parece que estamos na época dos dinossauros na questão aérea.
Beijos menina

Ana disse...

Medo de voar, medo de sair na rua...
Banalizamos as mortes e ficamos presos em casa...
Muito triste constatar isso!

Grace Olsson disse...

Rosinha,vc sabe que eu sempre gostei de viajar. Mas confesso que tenho viajado à base de calmantes.
KKKK
menina, morro de medo de aviao. Podes crer. Estou a pensar a ficar reclusa, mas em paz.
Menina, eu nao tenho medo de muita coisa, nao, pois já vi a guerra do Sudao...vilas sendo queimadas, criancas morrendo de fome...Mas, sinceramente, de AVIAO...TREMO NA BASE SÓ DE PENSAR....BJS E DIAS FELIZES



AH, CONCORDO COM A ANGELA EM TUDO...E COM TODOS OS COMENTARIOS ANTES DE MIM

Beth/Lilás disse...

Rosa,
O LUla tá por aí, ganhando prêmios como Embaixador da Paz, não sei onde?
Vivemos em constante guerra, principalmente aqui no Hell de Janeiro.
Esta semana fiquei meio down com tanta noticia de mortes e assassinatos e vem chumbo grosso por aí, pois um jornalista importante da mais famosa revista americana esteve no mês de Maio fazendo uma cobertura sobre as favelas do Rio e o que ele vai colocar na mídia até o final de Julho vai dar o que falar mundialmente.
Nada se faz, tudo é roubado deste povo e este engessado completamente. Tô muito triste ultimamente com tudo isso.
beijos cariocas

 
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